Um dos assuntos mais comentados dessa semana foi, sem dúvidas, o vídeo em que o cantor João Gomes fala, em um podcast, sobre o desejo de construir uma casa com alpendre em um condomínio de alto padrão.
Confira no vídeo abaixo:
A queixa de João escâncara aquilo que quem vive no mercado imobiliário de olhos abertos, provavelmente, já está cansado de ver.
Um mercado que tem se acostumado a entregar pouco e cobrar muito.
Antes de continuar, um ponto, João comprou um terreno para construir sua casa dentro de um condomínio de alto padrão. Para tal, como ele mesmo explicita, precisou procurar um arquiteto. E, segundo ele, não conseguiu um projeto que agradasse a ele e a família.
Dito isto, quero expandir o pensamento não apenas para os projetos apresentados por arquitetos para esses condomínios como, também, para aqueles empreendimentos de alto padrão cujo projeto já é pré-definido e as casas são “todas iguais”.

Casas de condomínio em Teresina (PI) – Foto: Divulgação
Pois bem, como estava a dizer, o mercado imobiliário (aqui representado pelas construtoras e arquitetos) se acostumou a vender a narrativa do clean, moderno e, quando muito, um neoclássico.
Não é difícil ver clientes verbalizarem em visita a obras: “nossa, mas parece umas caixinhas de fosforo”. E sim, parecem!
Uma arquitetura preguiçosa que parece jogada na paisagem. Com linhas retas, cores sem vida e pisos em porcelanato polido que não conversam com nenhuma das nossas origens.
Se puxarmos pura e simplesmente para nossa realidade, em Teresina, a coisa é “mais” complexa pois, em sua maioria, as casas não são pensadas para amenizar o intenso calor que nos assola todos os anos e cada dia mais intensamente.

Fachada do projeto recusado por João Gomes – Foto: Divulgação
Quando indagados, o pé direito alto e uma meia dúzia de brises é a solução. Sem falar na clássica: janelas amplas dos dois lados para termos um vento cruzado.
Esse vídeo do cantor traz a luz muitas questões para além da estética externa do imóvel. Nos lembra que estamos perdendo também a cor, pois a moda é minimalista a ponto de nos apagar e isso parece começar a incomodar.
Como profissional de Marketing, essa semana me peguei pensando em como nós deixamos a narrativa para venda até nos convencer de que algo estranho para nós é bom. No começo você questiona, mas é obrigado a buscar ideias para vender os imóveis. As encontra e quando ver na verdade, só matou uma estética para si mesmo em detrimento da narrativa da outra.

Exemplo de casa com alpendre – Foto: Reprodução/VGProjetos
É tamanha a opressão com relação a estética que ficamos pura e simplesmente reféns da narrativa. Prova disso foram as inúmeras manifestações sobre o tema essa semana (como faço nesse texto).
O bom da repercussão foi ver que existe sim um apreço por “casa com alpendre” como também por uma serie de coisas que fazem de nós um povo alegre e de estética própria. Tem lugar para tudo, logo, precisamos sair da caixinha de fosforo para viver outras realidades. Nesse caso, a nossa!